Travesti ou Transexual, tem diferença?

Roberta Close

Ai gente, tão anos 80 essa pergunta né? Pois é, mas ainda não superamos a ideia genitalizante que ainda recai sobre nossas existências. Inclusive estou há um tempo para escrever sobre isso e vinha até evitando. Porque é muito difícil tentar homogenizar as vivências trans a partir de uma tentativa de teorizar sobre subjetividades, que muitas vezes se constituem a partir de uma experiência pessoal que em alguma medida se conectam coletivamente.

Mas como sempre aparece essa pergunta— especialmente vinda de pessoas cis, curiosas, pesquisadoras ou não, vou tentar escrever sobre os elementos que vimos dialogando a partir da visão que tínhamos instituída e que passa a ser revista pela reinvidicação das próprias travestis.

Antes de repetir a pergunta, se questione por que quer saber. (Caia Coelho)

Definir é extremamente difícil, especialmente quando focamos na diferença quando na verdade deveríamos pensar naquilo que temos em comum.

Travesti portanto, seriam aquelas pessoas com uma identidade transgênera (não-cisgênera), reivindicada por pessoas designadas homens ao nascer (AMAB*), mas que não se reconhecem como pertencentes as identidades binárias (homem e mulher). Tem sua existência reconhecida em parte da América latina, e no Brasil marca a primeira onda do movimento não-cisgênero na luta por direitos, o movimento Travesti. Expressa-se como pertencente ao gênero feminino, mas não reivindica a identidade ‘’mulher’’, constituindo uma ideia própria sobre mulheridades.

Durante a primeira onda de organização do movimento LGBTI+, foram marcadas como sendo uma variação das homossexualidades, quase como quem tentava dizer que seriam gays que performavam uma feminilidade ilegítima(SIC), que se confundia com “gays femininos”, criando a ideia de que “os travestis”, à época, seriam homens vestidos de mulher, o que era dado pelas definições médicas, jurídicas e na própria língua portuguesa, pautadas na genitalização dos corpos.

E como ser travesti é, acima de tudo, um destino social**, todas que escapavam à regra do gay másculo hegemônico seria um travesti(sic). Até o momento em que as próprias travestis assumiam este discurso, se dizendo gays durante um período da história. Inclusive se referindo a elas mesmas como “os travestis”.

Ao passo em que as discussões sobre gênero ganhavam força, pesquisadores passaram a se aproximar destas mulheres para pesquisar sobre suas histórias de vida, estas por sua vez, passaram a ouvir o que estavam falando sobre elas e a forma com que o estigma de ser um homem vestido de mulher se impunha sobre suas existências. E a partir deste entendimento, surgiu a necessidade de se organizarem politicamente, pautando não apenas a necessidade da constituição de sua cidadania e acesso a direitos, mas também o direito a sua voz que vinha sendo usurpada e que passava a enfrentar um processo de retomada na forma de escrever sob a ótica das próprias travestis.

Foi quando perceberem que aquilo que vinha sendo dito, de fato não refletia a sua realidade, mas criava um arquétipo perigoso sobre quem seria este ser travesti, com todos os mitos, tabus, a desumanização e violência que se impunha sobre estes centauros urbanos. Neste processo de retomada de suas narrativas, há um processo de reconhecimento de seus corpos a partir do que mais se aproximava das expressões do gênero feminino. E ali passavam a se reivindicar como sendo As travestis.

Devendo ser usados pronomes femininos como ela/dela para se referir as Travestis.

Existem inclusive movimentos que pedem que seja revista a definição que consta em dicionários. Visto que se tornaram obsoletas e seu uso — como está escrito, é extremamente violento e transfóbico. Exatamente porque apaga toda uma história de luta e limita a nossa existência a uma vestimenta.

Pessoa que se veste com roupas do sexo oposto, geralmente, em espetáculos teatrais ou para ter satisfação psicológica.[1] Disfarce sob o traje de outro sexo.[2]

Essa identidade, que também é política, é produtora de uma cultura própria que rompe com o signos binários de macho e fêmea ou homem e mulher para afirmar-se Travesti, sem tradução possível em qualquer idioma, visto que qualquer tentativa de tradução ou analogia ao termo modificaria sua construção e traria como uma das consequências o apagamento de sua própria história.

Ao contrário do imaginário do senso comum, ser uma travesti não se resume ao uso da vestimenta do gênero oposto ao designado no nascimento, à modificação corporal ou meramente a expressão de gênero feminina. É o reconhecimento de um outro corpo possível, legítimo, para além do que está normatizado. É a constituição de uma identidade social e política.

Tal disruptura às normas sociais tradicionalmente instituídas, colocam as travestis as margens sociais. As expondo ou naturalizando práticas de violência estrutural, simbólica, psicológicas e até físicas — Travesticídio[3]. Além da exclusão comumente praticados contra elas.

Durante algum tempo, as ciências Psi, humanas e jurídicas distinguiam travestis e mulheres transexuais através de diagnósticos sobre como se percebiam e se relacionavam com seus corpos e o que desejavam. Onde hoje, este olhar não é mais aceito, visto que cabe apenas o respeito a autonomia das travestis para a autodeterminação suas identidades e sobre quem são. Mas, ainda existem muitos estigmas e transfobias especificas contra as Travestis, e contra quem assim se reinvidica.

A abordagem médica é completamente arcaica e transfóbica. A diferenciação entre travestis e transexuais foi cunhada pela medicina e durante muito tempo legitimada pelo direito de forma totalmente patologizante, estigmatizante e equivocada. Fato é que nenhuma cirurgia de alteração corporal é o que vai definir quem é ou não mulher. Há mulheres trans que não tem problema nenhum com a sua genitália e isso vai exatamente contra essa ideia de que todas nós devemos odiar o nosso corpo ou que estamos em um corpo errado(sic). O que é também uma ideia equivocada que foi disseminada e aceita durante um grande período de tempo, onde muitas pessoas trans inclusive introjetaram esse discurso.

Da mesma forma que existem pessoas que se identificam enquanto travestis e que podem ter o desejo de fazer a cirurgia de redesignação sexual. Sem que a cirurgia ou qualquer alteração corporal as defina. Exceto por um referencial cis-centrado, onde médicos e pesquisadores equivocados, veem a travesti como um ser masculinizado, caricaturado ou um homem vestido de mulher, marginal e violento. A colocando em um lugar inferior.

Muito em consequencia disso, houve um momento em que, muitas pessoas que eram lidas como sendo travestis, passaram a se identificar como sendo mulheres transexuais, talvez na ânsia de fugir dos estigmas impostos a esta parcela da população. E que hoje, com a luta dos movimentos e das próprias travestis, vemos um movimento de resgate de travestilidade. Ressignificando não apenas o termo e sua etimologia, mas também a sua própria forma de existir em sociedade.

E enquanto não vencermos essa ideia que é violenta, assim como garantir o entendimento sobre a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero, ainda teremos um longo caminho a trilhar frente a dificuldade de avançar em outros temas por conta desta confusão. Pois a travesti ainda é vista em muitos espaços como sendo um gay vestido de mulher(sic). E é exatamente por isso que esta reflexão se faz tão importante, inclusive junto à outras escritas que me antecederam, acadêmicas ou não. Que não se anulam ou se encerram em si, mas que nos cobram que revisitemos as ideias que nos foram mostradas e marcadas, além dos seus reflexos na vida e nas existências trans.

Hoje, procuramos discutir cada vez menos a diferença e focar mais naquilo que une as travestis e as mulheres transexuais. E talvez o ponto mais importante deste texto seja afirmar que o termo TRAVESTI não está em desuso — ao contrário do que desavisados possam afirmar. Ele está mais vivo do que nunca, ELA também. E não só sua etimologia que passa por diversas disputas de narrativa, mas sua própria (re)existência frente aos desafios de ser uma travesti.

Ser travesti não é para qualquer uma!

Muitas vezes são os marcadores de classe e raça que vão definir o lugar daquelas que se identificam e que, consequentemente, são identificadas enquanto travestis. A forma de tratamento e o olhar do outro é quem vai dizer do acesso e das violências que ambas serão ou não submetidas, e em quais espaços poderão estar/compartilhar. No imaginário social, as travestis seriam as prostitutas, negras e pobres, sem leitura social cisgênera, enquanto aquelas que são lidas enquanto mulheres transexuais, tidas como hierarquicamente mais mulheres e portanto são mais aceitas, seriam brancas, dentro de um padrão eurocrentado, modelos, atrizes e que não oferecem riscos a sociedade. Sendo a travesti a marginal, violenta e que precisam ser aniquiladas e a mulher trans, aquela que seria frágil, que sofre de disforia de gênero com seu corpo, e que após os procedimentos médicos cisgenerizantes, poderiam vir a ser aceitas.

O que causa um distanciamento das pautas em comum e afasta os pontos de confluência que temos na luta contra violência de gênero e a própria transfobia. Pois ainda há a disputa de uma marcação anterior a própria afirmação da pessoa. Sendo mais socialmente aceitas aquelas que se identificam enquanto mulheres trans, dóceis e que performariam uma feminilidade submissa — a imagem e semelhança de EVA (mulher de adão), enquanto a travesti é uma inimiga subversiva (Lilith, a primeira mulher expulsa do paraíso).

E talvez a única diferença de fato, seja a reivindicação do lugar de mulher na sociedade por uma, enquanto a outra pensa em outras feminilidades possíveis para além de como o ser mulher está instituído. E isso não tem a ver com corpo, genital, sexo ou sexualidade.

Neste sentido, é impossível diferenciar uma mulher transexual ou uma travesti apenas olhando para suas expressões de gênero ou as alterações que por ventura tenham realizado ou não. Inclusive as cirurgias de redesignação sexual não são capazes de marcar quem é uma mulher trans ou uma travesti. É necessário ter cautela ao tentar estabelecer características que separariam uma identidade da outra. A diferença real, é a forma com que você identifica seus preconceitos a partir de como você se relaciona com ambos os termos, sem que uma esteja em um lugar diferente da outra.

Ambos os termos, são como sinônimos sem que signifiquem exatamente a mesma coisa. Não existe hierarquia entre elas. Não existe diferença física. É uma forma intima e pessoal de se perceber na sociedade.

Assim, é impossível dizer quem é uma travesti ou quem é uma mulher transexual apenas olhando. Erraria feio e de forma extremamente equivocada, aqueles que tentarem definir a identidade de gênero de uma pessoa em detrimento da forma com que ela mesma se identifica.

Na dúvida, pergunte.

A reflexão que coloco neste texto-artigo-manifesto, se constitui a partir de diversos locais de escuta e trocas com travestis, pesquisadores e outros agentes que constituem a discussão sobre o ser travesti na sociedade. Esta discussão não se encerra aqui e deve continuar sendo pautada a partir de uma escuta capaz de potencializar o que as travestis estão falando sobre elas mesmas.

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**AMAB: Assigned as Male at Birth (designado como masculino no nascimento), termo que vendo sendo usado como forma de substituir o MTF (MaleToFemale) usado pela medicina.

**Trago no texto a ideia de “Destino social” como a designação dos processos de exclusão que impõe o emprobrecimento, a marginalização, a prostituição, a falta de acesso a saúde, a baixa escolaridade, a expectativa de vida e outros elementos que constituem o lugar onde a travesti esta posta na sociedade.

Referências:

[1] http://michaelis.uol.com.br/busca?id=PqezA

[2] “travesti”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008–2020, https://dicionario.priberam.org/travesti [consultado em 11–05–2020].

[3] Dossiê dos assassinatos e da violência contra travestis e transexuais no Brasil. https://antrabrasil.org/assassinatos/ [consultado em 17–05–2020].

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Sargenta da Marinha, Feminista, nordestina e TransAtivista. Diversidade acima de tudo, democracia acima de todos!

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Bruna G. Benevides

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